No âmbito do projecto: Fragmentação e Reconfiguração: a experiência da cidade entre arte e filosofia – PTDC/FER-FIL/32042/2017
Grupo Arte, Crítica e Experiência Estética – CultureLab
Resumos
João Oliveira Duarte:
Iremos partir de três imagens para interrogarmos um conjunto de práticas artísticas contemporâneas onde o arquivo se encontra em questão. A primeira imagem chega de Wolfgang Ernst: o arquivo pressupõe ou implica uma “prosopopeia alucinada”, uma tensão ou uma distribuição irregular entre a voz do vivo e a voz que chega de outro lugar. A segunda imagem parte de uma conhecida história de Simónides de Ceos: num jantar, os convivas foram soterrados pelo tecto da sala e Simónides, que ter-se-ia ausentando pouco tempo antes, conseguiu identificar todos eles a partir do lugar em que se encontravam sentados, colocando a memória numa tensão entre a ordem da proveniência e a destruição. A terceira e última imagem encontra-se na proximidade da primeira, e acentua acima de tudo o trabalho da distância, do tempo e da técnica. Nesta última, o arquivo assemelhar-se-ia a uma concha de onde se ouve, à distância, um som que parece o mar.
Nélio Conceição:
Em O Livro das Passagens, Walter Benjamin refere uma espécie de “desordem produtiva” que seria o cânone, quer da memória involuntária, quer do coleccionador. Poderá o mesmo cânone ser aplicado à figura conceptual do atlas? E, se a resposta for positiva, que traços específicos tomará ele neste caso? Acompanhando de perto – mas com alguns desvios – a obra de Didi-Huberman Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta, e desde logo a constatação de que o atlas constitui uma forma visual de saber que implica dois paradigmas, o estético da forma visual e o epistémico do saber, irei explorar a figura do atlas enquanto organização de imagens e espaço de pensamento onde a fragmentação e a reconfiguração surgem como noções plenamente operativas. Algumas oposições dialécticas guiarão o percurso e os excursos: infância e idade adulta; adivinhação e estudo; natureza e história; trapeiro e fotógrafo. Tratando da organização do(s) espaço(s), das suas ligações e tensões, a figura do atlas pode também ser utilizada heuristicamente para ver e pensar as cidades – lugares aos quais temos um acesso sempre circunscrito e fragmentado.

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